quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
Herói de verdade
Herói de verdade.
Em meados dos anos noventa durante a transmissão dos jogos do campeonato brasileiro da primeira divisão, uma emissora de TV, a mais assistida, lançou um quadro nos intervalos dos jogos: “Quem é seu herói?”. Os repórteres entrevistavam aleatoriamente um ou dois atletas e faziam esta pergunta. As respostas como de se esperar eram as mais diversas, mas, a maioria convergia para algum jogador do passado: Pelé, Zico, Tostão, Rivelino, etc... Do lado da poltrona, não perdia uma destas entrevistas, pois esperava algum com aquela resposta. Até que um dia, um jogador de nome Marcelo Dijean, zagueiro do Corinthians, foi o entrevistado e de forma direta e alegre falou: “Meu herói, sempre foi meu pai. Para mim um exemplo de tudo em minha vida”.
Lembrei daquele homenzarrão, aquela fortaleza ambulante, o protetor de minha casa que chamava de pai. Estar ao seu lado me dava àquela sensação de segurança e de força acima de tudo. Ele era para mim diferente de todos os outros homens, não o via adoecer, reclamar de machucões, maldizer da vida, não, pelo contrário, só pensava em ir pra frente, lutar, falar em trabalho e colocar o pão dentro de casa para alimentar seu filhos. Meu herói ao sair para enfrentar as lutas diárias não entrava num carrão todo equipado com computador de bordo, entrava num surrado par de sapatos que o levavam para os quatro cantos da cidade a fiscalizar as construções que administrava. Sobre os olhos não usava nada infravermelho, apenas um par de óculos escuros para combater a claridade solar. Quando retornava da lida diária, descansava sobre a mesa sua proteção da cabeça que nada mais era que seu inseparável chapéu. Isto, depois de responder a inúmeros pedidos de “bença pai”, proferidos por mim e meus irmãos.
Daquele momento em diante passava a acompanhar meu pai com o olhar deslocando-se pela casa sem nada dizer, apenas olhando e admirando aquela fortaleza humana. Depois, ele entrava no banheiro para lavar, retocar e revigorar sua armadura, fazer a manutenção necessária. Lembro que ouvia o abrir do chuveiro e em seguida quase acompanhado o ritmo da água um vozeirão começava a entoar canções. As notas sobrepunham os chiados do chuveiro provocados pelo ricochetear da água sobre sua pele. Do lado de fora apreciava a melodia sem muito entender. Hoje sei que a canção era uma de suas táticas para afastar os problemas. Como gostava de ouvir meu pai cantando no banheiro. Daí a pouco um cheiro familiar começava a ser sentido, era o seu xampu predileto, Aristolino, de frasco branco, tarja e letras vermelhas, usava o produto para melhorar seu curto cabelo, sempre penteado para o mesmo lado, o de trás.
Brincando no chão ou em algum lugar próximo ouvia sua voz mais clara, o banho acabara e o sinal era dado por suas potentíssimas passadas, levantava a cabeça e passava a olhar meu herói, agora, sem sua capa e sem suas armas, apenas de calça e alguma sandália leve nos pés, nu da cintura pra cima. Por suas costas, algumas gotículas de água ainda desciam, ele gostava de ficar “meio enxuto” para se refrescar melhor. Mais uma vez admirava aquela montanha humana, meu pai. Para mim suas costas eram como os montes de Sião, inabaláveis, uma estrutura firme e forte igual as colunas de um palácio transmitindo para nós muita segurança.
Meu herói sentava sempre na cabeceira da mesa, e a seu lado, um pedacinho de gente ficava a observar seus potentes braços como se fora um guindaste a cortar a carne e levantando pratos e panelas fazendo seu prato. Ele comia com tranqüilidade, seu maior problema, tornava-se o menor de todos quando sentava a mesa, não mencionava uma, uma dificuldade sequer que enfrentava ou estaria por enfrentar. Como dizia meu herói, “horário da refeição é horário sagrado, não se fala nem se discute problemas”.
Meu pai quando nos chamava a atenção não proferia palavrão, nunca ouvi, porém, seu globo ocular tomava uma dimensão diferente, espalmava sua grande mão e com o dedo em riste e tom de voz duro passava o sermão. Dizia ele que sua mão era pesada demais se fosse necessário usá-la e nós íamos nos arrepender. Aquela mesma mão dura e calejada que pegava a minha pequenina mão para responder a benção ou erguer-me nos braços, carregar-me para a cama. A mesma mão que entrava nos bolsos de suas calças, não para pegar nenhuma arma letal, mas, para verificar algum dinheiro disponível para entregar a minha mãe para fazer a feira.
Meu pai era o homem mais forte da terra, o mais duro, o mais temido, o mais inteligente. Esse era meu pai, que não teve o privilégio de conhecer o seu, foi abandonado logo nos primeiros anos de vida, no entanto, ele fez de sua mãe, mãe e pai, e isto não foi motivo para que trouxesse frustrações. Outro ponto que admiro nele era o respeito que tinha por sua mãe, uma senhora de avançada idade, mal caminhava, mas, para ele era como uma pedra preciosa, uma raridade, pela qual devota-lhe um respeito profundo.
O tempo passou, cresci, hoje sou pai, estou do lado de cá, do lado de meu herói, pai também como ele, sentindo as mesmas sensações, refazendo os mesmos caminhos, as mesmas lutas, e, em meio a tudo, sempre trago a imagem daquela fortaleza que é meu pai. Hoje, o pincel dos anos pintou seu cabelo, branquinhos como a neve. A erosão das temporadas abalou sua estrutura, sua descomunal força foi subtraída em parte, não poderia ser diferente, seu caminhar ficou mais lento, não sinto mais o ribombar das passadas, suas palavras soam mais fracas, a memória está cansada. Contudo, sempre o verei com a imagem daquele menino “sambudo”, como dizia ele, sempre, sempre guardarei as belas imagens de meu grande herói, meu pai.
Deus te abençoe, meu pai.
Guega, seu filho.
24.10.09
Em meados dos anos noventa durante a transmissão dos jogos do campeonato brasileiro da primeira divisão, uma emissora de TV, a mais assistida, lançou um quadro nos intervalos dos jogos: “Quem é seu herói?”. Os repórteres entrevistavam aleatoriamente um ou dois atletas e faziam esta pergunta. As respostas como de se esperar eram as mais diversas, mas, a maioria convergia para algum jogador do passado: Pelé, Zico, Tostão, Rivelino, etc... Do lado da poltrona, não perdia uma destas entrevistas, pois esperava algum com aquela resposta. Até que um dia, um jogador de nome Marcelo Dijean, zagueiro do Corinthians, foi o entrevistado e de forma direta e alegre falou: “Meu herói, sempre foi meu pai. Para mim um exemplo de tudo em minha vida”.
Lembrei daquele homenzarrão, aquela fortaleza ambulante, o protetor de minha casa que chamava de pai. Estar ao seu lado me dava àquela sensação de segurança e de força acima de tudo. Ele era para mim diferente de todos os outros homens, não o via adoecer, reclamar de machucões, maldizer da vida, não, pelo contrário, só pensava em ir pra frente, lutar, falar em trabalho e colocar o pão dentro de casa para alimentar seu filhos. Meu herói ao sair para enfrentar as lutas diárias não entrava num carrão todo equipado com computador de bordo, entrava num surrado par de sapatos que o levavam para os quatro cantos da cidade a fiscalizar as construções que administrava. Sobre os olhos não usava nada infravermelho, apenas um par de óculos escuros para combater a claridade solar. Quando retornava da lida diária, descansava sobre a mesa sua proteção da cabeça que nada mais era que seu inseparável chapéu. Isto, depois de responder a inúmeros pedidos de “bença pai”, proferidos por mim e meus irmãos.
Daquele momento em diante passava a acompanhar meu pai com o olhar deslocando-se pela casa sem nada dizer, apenas olhando e admirando aquela fortaleza humana. Depois, ele entrava no banheiro para lavar, retocar e revigorar sua armadura, fazer a manutenção necessária. Lembro que ouvia o abrir do chuveiro e em seguida quase acompanhado o ritmo da água um vozeirão começava a entoar canções. As notas sobrepunham os chiados do chuveiro provocados pelo ricochetear da água sobre sua pele. Do lado de fora apreciava a melodia sem muito entender. Hoje sei que a canção era uma de suas táticas para afastar os problemas. Como gostava de ouvir meu pai cantando no banheiro. Daí a pouco um cheiro familiar começava a ser sentido, era o seu xampu predileto, Aristolino, de frasco branco, tarja e letras vermelhas, usava o produto para melhorar seu curto cabelo, sempre penteado para o mesmo lado, o de trás.
Brincando no chão ou em algum lugar próximo ouvia sua voz mais clara, o banho acabara e o sinal era dado por suas potentíssimas passadas, levantava a cabeça e passava a olhar meu herói, agora, sem sua capa e sem suas armas, apenas de calça e alguma sandália leve nos pés, nu da cintura pra cima. Por suas costas, algumas gotículas de água ainda desciam, ele gostava de ficar “meio enxuto” para se refrescar melhor. Mais uma vez admirava aquela montanha humana, meu pai. Para mim suas costas eram como os montes de Sião, inabaláveis, uma estrutura firme e forte igual as colunas de um palácio transmitindo para nós muita segurança.
Meu herói sentava sempre na cabeceira da mesa, e a seu lado, um pedacinho de gente ficava a observar seus potentes braços como se fora um guindaste a cortar a carne e levantando pratos e panelas fazendo seu prato. Ele comia com tranqüilidade, seu maior problema, tornava-se o menor de todos quando sentava a mesa, não mencionava uma, uma dificuldade sequer que enfrentava ou estaria por enfrentar. Como dizia meu herói, “horário da refeição é horário sagrado, não se fala nem se discute problemas”.
Meu pai quando nos chamava a atenção não proferia palavrão, nunca ouvi, porém, seu globo ocular tomava uma dimensão diferente, espalmava sua grande mão e com o dedo em riste e tom de voz duro passava o sermão. Dizia ele que sua mão era pesada demais se fosse necessário usá-la e nós íamos nos arrepender. Aquela mesma mão dura e calejada que pegava a minha pequenina mão para responder a benção ou erguer-me nos braços, carregar-me para a cama. A mesma mão que entrava nos bolsos de suas calças, não para pegar nenhuma arma letal, mas, para verificar algum dinheiro disponível para entregar a minha mãe para fazer a feira.
Meu pai era o homem mais forte da terra, o mais duro, o mais temido, o mais inteligente. Esse era meu pai, que não teve o privilégio de conhecer o seu, foi abandonado logo nos primeiros anos de vida, no entanto, ele fez de sua mãe, mãe e pai, e isto não foi motivo para que trouxesse frustrações. Outro ponto que admiro nele era o respeito que tinha por sua mãe, uma senhora de avançada idade, mal caminhava, mas, para ele era como uma pedra preciosa, uma raridade, pela qual devota-lhe um respeito profundo.
O tempo passou, cresci, hoje sou pai, estou do lado de cá, do lado de meu herói, pai também como ele, sentindo as mesmas sensações, refazendo os mesmos caminhos, as mesmas lutas, e, em meio a tudo, sempre trago a imagem daquela fortaleza que é meu pai. Hoje, o pincel dos anos pintou seu cabelo, branquinhos como a neve. A erosão das temporadas abalou sua estrutura, sua descomunal força foi subtraída em parte, não poderia ser diferente, seu caminhar ficou mais lento, não sinto mais o ribombar das passadas, suas palavras soam mais fracas, a memória está cansada. Contudo, sempre o verei com a imagem daquele menino “sambudo”, como dizia ele, sempre, sempre guardarei as belas imagens de meu grande herói, meu pai.
Deus te abençoe, meu pai.
Guega, seu filho.
24.10.09
Assinar:
Postagens (Atom)